terça-feira, 29 de maio de 2018

"Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis", livro de Jarid Arraes, por Lorena Ribeiro

Nos registros brasileiros
A injustiça predomina
E o danado esquecimento
Na injustiça se culmina
Pois ainda não se acha
Tudo o que se examina.

Esquecidas da História
As mulheres inda estão
Sendo negras, só piora
Esse quadro de exclusão
Sobre elas não se grava
Nem se faz uma menção.

[...]

(ARRAES, 2017, p. 97)


Já na fase adulta de minha vida (e depois de algumas leituras críticas na graduação) percebi que eu não tive contato com livros que, pelo menos, citassem as mulheres negras que fizeram parte de marcos históricos do nosso país. Se já é difícil ter referências de mulheres à frente de acontecimentos relatados nos livros didáticos, encontrar menções às pretas é, infelizmente, uma raridade.
Por essa razão, a Jarid Arraes, autora cearense, realizou pesquisas sobre mulheres negras brasileiras que foram/são grandes guerreiras, mas pouco (ou nada) (re)conhecidas. Ela escreveu diversos cordéis sobre essas personagens e selecionou quinze para compor o livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, que foi ilustrado lindamente pela Gabriela Pires, e publicado pela editora Pólen em 2017.


Escritora e cordelista, nascida em Juazeiro do Norte – CE. Atualmente mora em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita para Mulheres. Até o momento, tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel. Além disso, publicou dois livros: "As lendas de Dandara" e "Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis".
Imagem do Facebook de Jarid Arraes
Heroínas Negras é um livro muito importante e necessário a todxs, principalmente, a nós, negrxs. Jovens negrxs precisam dessas referências! Saber que sim, somos capazes, faz toda diferença na autoestima de pessoas que ouvem “não” diariamente. Então, vamos disseminar essas histórias!
Além de relatar a vida e lutas de Antonieta de Barros, Aqualtune, Carolina Maria de Jesus, Dandara dos Palmares, Esperança Garcia, Eva Maria do Bonsucesso, Laudelina de Campos, Luísa Mahin, Maria Felipa, Maria Firmina dos Reis, Mariana Crioula, Na Agontimé, Tereza de Benguela, Tia Ciata e Zacimba Gaba, a Jarid nos convida, ao final das leituras, a contar a história de uma mulher negra importante em nossa vida. Essa interação com o livro é muito legal e, além de exercitar a criatividade, nos faz pensar em guerreiras próximas a nós e exaltá-las.
Para as pessoas que trabalham na área da educação, Heroínas Negras Brasileiras é um material riquíssimo para trabalhar com xs alunxs. Fica, então, a minha indicação: vamos aproveitar essa autora maravilhosa! Vamos levar representatividade às/aos jovens!


[...]
Por causa dessas mulheres
Hoje temos liberdade
É por isso que me orgulho
Da minha ancestralidade
Preservar é um prazer
E responsabilidade.

(ARRAES, 2017, p. 62)


Lorena Cristina Ribeiro Nascimento
Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), mestra em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutoranda na mesma instituição. É criadora de conteúdo no Youtube e Instagram, junto com seu companheiro Rafael, no projeto Passos entre Linhas. No canal, o casal bate papos sobre livros, filmes e lugares que gostariam de compartilhar com o público. Pesquisadora na área da Linguística, Lorena segue, com Passos entre Linhas, mantendo acesa sua paixão pela Literatura. 



domingo, 13 de maio de 2018

Afeto - Um conto de Marli Aguiar


Toque, toque, toque, toque, toque, toque. É o barulho dos passos dela que caminha de um lado a outro no vazio da sala. Passos inquietos. O som dos saltos dos sapatos no chão feito de taco de madeira carvalho se ouve a distância e em casa cada cômodo da casa. É ela, Makeba, nome dado pela bisavó, por achar que soava bonito e que de alguma forma trazia as lembranças de um lugar distante. Ela pensa e dispensa aquilo que vai e vem em sua memória, é quase uma luta corporal, entre mente, corpo e memória de menina, agora mulher.  Lembranças que despertaram em seu peito um gosto cálido, doce e amargo da saudade de tudo que vivera. A infância. Já faz tempo, pensa Makeba, como tais lembranças ainda podem causar redemoinhos dentro de si? Respostas, ela não tem, mas sabe que a incomodam e fazem com que ande mais rápido e ressoando pela casa o barulho dos sapatos batendo no chão. Makeba sente um fio fino e gelado escapar e escorrer por seu rosto, mas se recusa tocar, pode trazer mais sentimentos. E no vãmente espantada se pergunta como pode lembranças de criança ainda fazê-la chorar. Justo naquele momento, que iria sair para um encontro que já estava marcado há dias? Justo naquela hora, que estava indo ao encontro de si, mas, por outra estrada? Sentiu raiva, chorou respirou e depois riu de tudo, riu do tempo e riu de si e viu que nada estava sob controle. A batalha interna de seu corpo contra as memórias e os sentimentos que elas provocavam já a deixava exausta. Sentou um pouco e respirou, viu que estava à frente do espelho, fitou-o com olhos firmes e novamente se pôs de pé. Falando consigo, falando com seu reflexo no espelho: você já é adulta e não pode voltar a ser criança. Volta a se movimentar, respira, gesticula, respira. Para novamente na frente do espelho e, como para se afirmar da idade que tem, vê apenas alguns fios brancos na cabeça escondido entre outros, esses são os únicos sinais que lhe fazem perceber que o tempo passou, que dera um salto na história.
***
Makeba dá um sorriso rasgado para o velho amigo -- um espelho grande que se encontra na entrada da casa entre a sala e o corredor -- e, apesar da idade, percebe que está sozinha, ou ela e o velho amigo. Onde foram parar os homens que a amou um dia, pergunta a mulher menina? Mas, o espelho não é capaz de responder, apenas sorri de volta. Makeba vê no riso do velho amigo o retrato de sua infância, ele a captura e a leva de volta ao mundo que ela mesma tem medo e não consegue acessar. Sentou em sua poltrona vermelha cor de sangue vivo e pôs-se a folhear um livro de capa também vermelha, e a cada momento sentia-se mais atraída pela história de infância, memórias, lembranças, que logo nas primeiras linhas dizia: “(...) jogar fora as bonecas de sabugo (...)”, o que lhe desencadeia um mundo subterrâneo de memórias e emoções não reveladas antes. E pensa: minhas bonecas de sabugo de milho. Makeba se desloca para as lembranças do passado no momento presente, pensa: minhas bonecas. Nesse momento, ela se entrega ao seu ser criança e revivendo suas lembranças, chupando dedo, com uma trança grossa de cada lado da cabeça, um vestido de bolinha preta feito por sua mãe. Makeba se entrega nas fantasias de outrora, segurando a saia de sua mãe com uma mão e, na outra, uma boneca feita da espiga do sabugo do milho. Lembra ela de tantas bonecas, das suas e das amigas que viviam na colônia. Pela escassez de recursos das famílias que ali viviam, a criatividade e a imaginação das crianças não faltavam. Tudo era ligado à terra, ao tempo, pensava ela. As crianças não viam a hora da plantação e da colheita do milho, pois, além de alimento saboroso, servia também para fornecer bonecas de vários tamanhos e coloração de cabelos, quando entrava no tempo de maturação. Para Makeba e sua turminha, não havia coisa melhor, passavam o dia todo entre o milharal, sapecadas pelas folhas, na busca da melhor boneca, em suas variedades de cores de cabelos, pretos, loiros, vermelhos, verdes. Sorriam felizes até ouvirem os gritos das mães pedindo que não estragassem as plantações. Makeba ria de suas lembranças, e viu também que a hora de sair já havia esgotado, e desistiu do tal passeio, do tal encontro, preferia sua companhia e de suas mais novas memórias de infância. Quando não havia mais milho, sua mãe preparava as bonecas de sabugo, já seco após aproveitar os grãos das espigas. Entre uma estação e outra, em especial no inverno, a mãe de Makeba fazia as bonecas de pano, assim como as de milho, não eram duradouras. Todas elas tinham um tempo limite de existência, um dia ou uma noite, assim, não criava-se vínculo. As estações, as plantações, as colheitas e as bonecas, tudo tinha um ciclo. Makeba amava as bonecas de pano que sua mãe fazia. Era um ritual, uma criação formidável aos olhos da criança, agora mulher, mas suas lembranças eram tão vivas que atravessava os tempos. Uma noite Makeba ficou olhando sua mãe fazer nascer sua boneca, e ela, com um dedo na boca, chupando-o como se estivesse amamentando na teta abundante de sua mãe, encostada à beira do fogão de lenha para se aquecer. Viu a mãe com uma trouxa de panos, grandes, pequenos, lisos e coloridos, esperava a chegada de sua boneca de pano.
***
Marli Aguiar com sua mãe
A menina olhava com ternura os movimentos das mãos da mãe e o balançar de sua saia, que às vezes, com os movimentos rápidos que fazia, soprava a brasa do fogão para atiçar o fogo. Makeba, com o dedo na boca e puxando suas tranças, observava a mãe em seu exercício na construção daquele objeto tão desejado, ambas em silêncio, só ação, sentidos e movimentos. Era a cena mais singela, mais profunda e íntima, da expressão de amor entre mãe e filha. Pensava Makeba, nas histórias que sua bisavó contava, sobre a travessia do Atlântico, onde mães faziam bonecas de pedaços de suas poucas vestimentas para as crianças e homens, para esquecerem a dor e a angústia do momento e para não morrerem de banzo. Esse momento era de conexão, quando ainda ela não compreendia todos os fatos. De vez em quando, a mãe de Makeba esboçava-lhe um sorriso, um carinho na cabeça da filha, e a menina lhe retribuía com outro sorriso, isso acontecia até finalizar a obra. Makeba se punha inquieta, com o passar do tempo para receber logo o presente, o amor, o carinho de mãe através da boneca de pano feita de vários tecidos. Ali, era expressão de amor e de delicadeza. Quando a menina recebeu nos braços aquele afeto em forma de boneca, um brinquedo, que não era qualquer brinquedo, os olhos brilhavam – agora, não sabia se era riso ou lágrimas, pois, o passado e o presente se fundem. A mãe entrega o brinquedo carregado de amor e fantasia e dá um tapinha no bumbum de Makeba e esta sai correndo para o quarto para mostrar a suas irmãs maiores e desfrutar de tudo aquilo junto com elas. Tempos depois, se viam dormindo agarradas, Makeba, a boneca e a mãe, e interpunham entre elas o calor, o amor e o afeto. Estas eram as lembranças de que Makeba menina mulher tinha medo: do calor, do amor e do afeto... do colo de mãe.



Marli Aguiar 


Graduanda em Letras pela Universidade Federal de São Paulo, militante da luta antirracista, feminista, participante ativa da Marcha Mundial das Mulheres e do Coletivo Conversa de Negra na Cidade de São Paulo. Publicou o livro de contos autobiográfico Tecendo memórias e histórias, que teve cada exemplar encadernado pelas mãos da própria autora com a ajuda de uma rede de mulheres.


quinta-feira, 3 de maio de 2018

#Ficaadica da Iaiá - Omo-Obá: histórias de princesas

Histórias de princesas: é exatamente isso o que o livro de Kiusam de Oliveira nos traz. Entretanto, não há princesas amaldiçoadas, envenenadas ou trancafiadas em torres -- aliás, há uma delas  que habita uma cabaça e ela quando se liberta… surgem dois elementos essenciais para a nossa vida. Também não espere encontrar ilustrações de princesas de pele clara como a neve ou com longas tranças douradas. Baseado em contos de origem africana, Omo Oba nos apresenta princesas que carregam orgulhosamente seu adê* em cabelos crespos e que possuem uma linda pele preta. Algumas possuem uma beleza natural; umas mais vaidosas; outras, menos;  todas lindas. Beleza, essa, notável principalmente pelas qualidades que essas princesas possuem, como: tranquilidade, equilíbrio, determinação, genialidade, rapidez, e até características que para algumas pessoas são consideradas como defeitos, como orgulho, atrevimento e introspecção. Oiá, Oxum, Iemanjá, Olocum, Ajê Xaluga e Oduduá são seis princesas muito poderosas, que com suas histórias nos mostram seu poder e importância na criação universo. Mas esse livro não é sobre religião, ele é sobre empoderamento feminino e respeito. Inclusive, esse livro nos ensina que em uma sociedade não devem existir  funções menos importantes -- tanto o trabalho de um ferreiro como de uma princesa tem sua importância na comunidade. Por tudo isso, OMO OBA é odara**.
Livro emprestado da Biblioteca São Paulo (Av. Cruzeiro do Sul, 2630, Santana - São Paulo -SP). Consulte a disponibilidade e outros locais onde essa obra pode ser encontrada, no Sistema de Bibliotecas de São Paulo.

*coroa ** bonito
Iara Moraes
Arte-educadora, técnica em biblioteconomia e integrante do coletivo Mulheres Negras na Biblioteca.







terça-feira, 17 de abril de 2018

Fiar o tempo, um romance de Luanda Julião


Fiar o tempo é um romance que narra uma relação conturbada e ausente entre pai e filha, atravessando dilemas da juventude atual  e conduz os leitores a questões universais como o tempo e a memória, a beleza e o amor, a morte e a criação artística, questões essas que são atravessadas por temas tangentes aos jovens em nossa sociedade atual, como o imediatismo, o consumismo exacerbado e o niilismo. Dessa maneira, somos convidados a atravessar as anotações, os aforismos, os rascunhos do livro de Júlia e o luto de Antony recriando um passado que se debruça sobre o presente.

Antony tem uma filha, Júlia, a qual ele fica mais de vinte anos sem conhecer. Quando Antony finalmente decide se aproximar da filha e revelar sua verdadeira identidade, um acidente de carro acaba ceifando a vida dela e das suas outras três amigas: Malu, Lola e Milla, personagens que estão conectadas ao enredo e que se tornam personagens de Júlia e Antony.

Antony busca desenfreadamente reconstruir a memória de um passado ausente, remendando pedaços, tecendo fios soltos das passagens e memórias tecidos pelo livro inacabado de Júlia. Como o fio de Ariadne, que guia Teseu no labirinto de Creta, os relatos de Júlia são a linha que guia Antony em sua dívida com o passado.


"O que é a memória? Penso que é como um novelo único e contínuo, enredado dentro de nós, que emerge à consciência em fragmentos, em variados graus, sendo essa emersão às vezes espontânea, às vezes uma resposta a um chamado da consciência. Fiar o tempo com as palavras é como costurar um traje de gala com retalhos ou tecidos gastos. Esse livro é como uma colcha de retalhos: tecido com os fios da memória alargada, bordado com o novelo do passado, distendido pela imaginação. É um livro que segue o fluxo da memória e que como ela também é inconstante, descontínuo, sem linearidade, com ritmos variados, como as faixas de um álbum musical. Talvez até mais que isso, pois esse livro engendra memórias, recria o tempo. Veja bem: recria, jamais volta no tempo. Visto que o tempo é irreversível, nunca volta atrás. Não se perde o passado, mas também não se pode repeti-lo. Não se vive duas vezes. O passado em si, tal como foi, jamais é revivido, recuperado. Mas não se deve lamentar! Podemos recriá-lo indefinidamente, de variadas formas, numa composição ou recomposição de intensidades variadas, em diversos níveis e alturas. Um salto no tempo, um mergulho no passado e a emersão dos seus traços na consciência é o que tenho feito nos últimos meses."

Assim, através do livro que Júlia começou a escrever, e não teve tempo de terminar, vemos a dicotomia entre passado e presente e como aquele interfere nesse. E Antony, que é leitor e narrador ao mesmo tempo, intromete-se no meio da história para dar sua opinião, fazendo-nos questionar quem de fato é o autor da obra.


#tempo #memória # juventude #amizade #amor #luto #perda




Luanda Julião

Nasceu em São Paulo, em 1982, mas cresceu em Atibaia, onde morou até 2016. Graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, em 2011, onde também concluiu o mestrado, em 2014. Atualmente, cursa o doutorado em Filosofia Francesa Contemporânea, na Universidade de São Carlos e leciona nas escolas da rede pública e privada. Escreve contos, poesia, romances e roteiros de longa-metragem nas horas vagas. Fiar o tempo é seu primeiro romance publicado pela Clube de Autores. Além desse romance, tem também publicado o livro A Ária das Águas.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Sem gentileza, um livro duro e necessário

Sem gentileza é um livro duro de ler, mas necessário, e imagino que tenha sido difícil escrevê-lo. Quem o assina é Futhi Ntshingila, uma autora sul-africana, e este é seu segundo romance. Ela tem um comprometimento social com suas raízes africanas e em sua obra busca retratar um estrato da sociedade que geralmente é renegado e não ocupa o espaço central em romances, sequer aparecendo na grande maioria. 
editora dublinense

O livro conta a história de Mvelo, uma jovem de 14 anos, mas com uma aparência de uma mulher muito mais velha, tamanho é o peso que carrega nas costas apesar de tão pouca idade. Trata-se de uma jovem que cuida da mãe, que é soropositiva e tem seu benefício cortado pelo governo.

Mvelo observa de perto o definhar de sua mãe e a situação caótica que a AIDS tem causado em seu ambiente. Ela desiste de ir para a escola, pois sabe que a mãe não tem condições de pagar por seus estudos. O ambiente em que vive, além de ser muito hostil, é um lugar em que a mulher tem sua liberdade limitada devido ao machismo instaurado na sociedade, que se reflete na figura dos abusadores de garotas como Mvelo.

Zola sente imenso amor pela filha e se preocupa muito com o que será dela após sua morte, que ela sabe chegar em breve. Mvelo frequenta a igreja local, mas, justamente nesse ambiente em que deveria se sentir segura, é vítima de abuso sexual e engravida. A partir desse dia, um peso enorme toma conta de seu coração e se reflete em seu semblante. Ela não deseja o bebê, pois acredita que nada tem a  oferecer a ele.

Uma figura muito importante na vida de Mvelo é Nonceba, uma mulher linda e independente que ela conhece por meio de Sipho, com quem sua mãe se relacionou por algum tempo. Nonceba era tudo que Mvelo sonhava um dia ser, mas sua história também foi marcada por dificuldades. Seu pai era branco e sua mãe, uma jovem negra revolucionária. Embora ele fosse apaixonado por ela, não teve coragem de assumi-la perante sua família, abandonando-a em um momento de tensão racial e política, reflexo do período do apartheid.

Nonceba é uma figura muito importante porque, mesmo Mvelo nutrindo certo sentimento de rejeição por ela após ela ter namorado Sipho, é a figura que cuida dela após a partida de sua mãe, é a figura que a ensina a se reconciliar consigo mesmo habitando um mundo tão hostil para com as mulheres, um mundo sem gentileza.



Patricia Anunciada

Formada em Letras pela PUCSP, pós graduada em Língua e Literatura pela UNICAMP, atualmente estuda Literatura na UNIFESP. Atua como professora da rede municipal e desenvolve projetos voltados para a área das relações étnico-raciais. Possui um canal chamado Letras Pretas, onde indica obras e autores para trabalhar em sala de aula, com foco na Lei 10.639. Escreve para o Blogueiras Negras sobre literatura, feminismo e racismo.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Três poemas escrevividos por Tayná Corrêa

Só custa o sorriso

Há uma fratura exposta
E o risco de infecção
O corpo deslocado
Em estado de petição.
Cláusulas nos deixam enclausurados
Encucados, encarcerados, esbaforidos, em grave quadro.
Toma enquadro na sala e no portão
O currículo digitado pensado pra inserção
No mercado, mercado de trabalho
Que brinca com teu sustento, te compra e vende pela metade do preço.
Promoção, custa só teu sorriso
Numa boca desdentada, que por nada perdeu o siso.
Veja isto, isto é, na folha de São Paulo somos as letras do roda-pé.
Quem sentiu a brisa forte, sabe o preço de uma noite
Espera pela manhã pra ver se pede o reembolso.
Troco? Quem te viu e quem te vê.
Tá barato pro patrão, quase de graça pra patroa.
A força de trabalho, Senhora, só custa teu sorriso.
Cada caso de injustiça é um copo de veneno, quem bebeu morreu
O culpado não sou eu, é quem comanda esse museu.



Hipotenusa

Obtusa pelo ângulo que tenho visto as coisas
de canto observo as linhas traçadas
360 é o grau, cada dia um degrau
5 são excedentes dos que desisti
busquei na Geometria, o que o feudalismo comprimiu
medida de terra? gritei, quem ouviu?
eu? mulher? ainda mais, preta...
nessa figura sou hipotenusa, 
aquela que  se estende debaixo
esperando pela tangente que é uma
linha que toca num ponto da outra sem a cortar.
Enfim, tão complicada como a vida da mulher que é a matemática,
dilata as vistas, fria espanta, frente às contas que vem somando
e sempre que negativa nessa equação
não dá solução!
Hipotenusa, medusa, medula, carne fria
Pia, chia, grita, fica à moda antiga,
Dá barriga, fadiga, dá à luz, sente sozinha.
Sexo frágil? mas quem fugiu foi quem a enchera.
-- Vai ter de prestar contas, vivendo a vida em plena Somália.
Se desse conta justa talvez se somasse,
mas nos gráficos é estatística.
Morte, estupro, desemprego e revelia.
Ah! do seu grito faz canto, ainda canta em plena palmatória
como se já estivesse em dias de vitória.




Hoje foi

É que hoje foi propício,
mas não é de hoje não
que eu tô me arrastando
observando minha boca
encher de pó
sendo levada por qualquer
emoção
desmotivada por qualquer
desdém.
Não é de hoje que eu ando
desconexa
Perplexa, pensando numa
maneira de ser menos
complexa.
E quando me perguntam:
Está tudo bem?
Quase sempre minto.
Penso que essa é uma pergunta vagabunda
já que tudo é "tudo"
e às vezes uma resposta nem
fica bem.
Tô me convencendo
que hoje eu tô vencida
de faz tempo
e posso estar dando
viajem perdida.
Mas qualquer coisa tô
levando meu caderninho,
pra escrever e ir
denunciando a vida.

Tayná Corrêa














Pedagoga, estudante de teatro, escritora de poesia, rapper, integrante do coletivo Sarauêras.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Eu quero ser escritora!

Um texto sobre a gana de criar com as palavras. 

Ter amor pelo livro. Ter amor pela gente.

Querida vontade, antes de se manifestar em prática, você foi pura observação. Te vi ali no meu desejo. Primeiro pelas pessoas. Segundo, pelos livros que carregavam as pessoas. Não é mentira que o exemplo cria flor na terra seca. Pois foi no amar alguém que amei os livros. Amar alguém que lê não é difícil. O amor pode morrer que a leitura continua.


O escudo é a palavra. Pena de faca é a caneta. E tem vez que o amor testa a nossa paz pelas pessoas. Por que né, como a mulher se defende do código macho de agressividade? Palavreia suas defesas. Gere argumentação. Seja brincante ou direta. Fura o alvo. Faz vazar, até que daquela boca não saiam palavras que justifiquem o mau trato de nossos corpos, mentes e futuros.


E se não tem pernas para chutar, armas para atirar, nem grana para comprar. Defenda-se com suas palavras, escritas do peito tiradas. Ah, eu quero ser escritora. 

E leitora. Aquela que lê. Decodifica, compreende os sonhos e medos de tantas outras, do antes e do agora. Do depois. E quando a mulher negra se torna leitora, ela vive os traços da mente de todos. Suga as linhas, bebe dos saberes, escala as estruturas e constrói a coisa única que é sua realidade em próprias palavras.

Lê livro. Lê jornal. Lê revista suja. Lê fanzine sincera. Lê a receita e a bula. O contrato. As palavras do amor desconfiado. As cartas nunca entregues para a própria mãe. Ela é leitora.

E quando a noite cai, minha querida vontade,  ela desperta para o lápis, para a caneta, para as teclas dos aparelhos digitais. No tempo do ônibus, nas horas do trem. Ela escreve. Firme e forte. As letrinhas nem tremem.


Ah, eu quero ser fazedora de palavras. Como Carolina e Conceição. Como a minha avó. Como a menina criança que, mesmo sabendo o real, inventa tudo de novo.

Malokêarô!














Bruna Tamires é escritora, leitora e desenhista. Faz zines e amor.

Jarid Arraes lança, em São Paulo, seu primeiro livro de contos #LoreEntreLinhas

A escritora cearense Jarid Arraes é um grande nome da literatura nacional contemporânea, principalmente conhecida por seus vários cord...